Quarta-feira
Dez092009

Tarde demais para fazer terapia? 

É bastante comum nos depararmos com um entendimento equivocado de que psicoterapia “é coisa para gente jovem, que ainda tem muito tempo pela frente”. Muitos acreditam que os problemas típicos das pessoas com idade mais avançada – como os esquecimentos, as quedas, os déficits – são assunto apenas para o médico ou que, na melhor das hipóteses, os que sofrem destes problemas deveriam ter abertura para procurar o neurologista ou psiquiatra.

Ignora-se, contudo, o quanto esta pode ser uma fase privilegiada para se iniciar uma psicoterapia. Apesar de os mais velhos de hoje serem, em grande parte, bastante ativos (inclusive fisicamente), ainda persistem muitos preconceitos sobre o que eles ainda podem realizar na vida. Muitos deles afirmam estar em seu momento mais produtivo da vida, seja no plano profissional ou afetivo. São pessoas que, por algum motivo, tiveram que adiar sua satisfação pessoal para mais tarde e que encontram, a partir da entrada numa psicoterapia, uma oportunidade única de resgatar o prazer e a alegria em viver. O investimento num processo de terapia também pode ajudá-los a lidar com os impactos das gerações mais jovens e mesmo, com os fantasmas de doenças como Alzheimer e Parkinson (especialmente quando há casos na família ou de perda de algum ente).

Notamos que existe uma concepção errônea de que psicoterapia existe apenas para tratar de crianças, adolescentes e adultos, como se a noção de psicoterapia não fosse adequada para pessoas que já trilharam um tempo maior de vida. Desta maneira, defendemos que uma psicoterapia pode ser iniciada em qualquer idade, inclusive na chamada Terceira Idade. Observamos que este pode ser o momento ideal para começar ou retomar um trabalho psicoterapêutico. O psicoterapeuta é um profissional hábil e com formação específica, que irá propiciar um espaço único para que o cliente, jovem ou não, sinta-se à vontade para expor suas questões e elaborar suas angústias.

Podemos enxergar uma certa “vantagem” – um elemento facilitador – em submeter-se à uma psicoterapia nessa fase da vida, na medida em que este é um tempo em que pode haver grande abertura ao trabalho de rememoração. Após acumular tantos anos de vida, tantas experiências, chega-se a um ponto em que se percebe a necessidade de realizar um balanço sobre a vida, fazendo um exame a respeito das próprias escolhas e caminhos trilhados. Através de uma escuta atenta, treinada e, ao mesmo tempo, suficientemente acolhedora, o psicoterapeuta dará suporte ao cliente neste processo de resgate do tempo passado, a fim de que ele possa lidar melhor com seus limites mas, principalmente, possa exercitar suas potencialidades. Muitas vezes, logo no começo da psicoterapia, as pessoas de mais idade parecem reforçar seu laço com a vida, adquirindo mais cor e leveza. Os resultados podem ser sentidos com rapidez, em muitos casos.

Por tudo isso, entendemos que qualquer pessoa pode se beneficiar de uma psicoterapia, independente da idade. Tudo dependerá da disponibilidade de cada cliente e da competência técnica do terapeuta. Os mais velhos, muitas vezes, podem sentir uma necessidade maior e mesmo uma urgência em trabalhar suas questões e aliviar suas angústias. Para eles, não há tempo a perder. Para nós, psicoterapeutas, persiste a aposta na escuta e acolhimento destes indivíduos, que se encontram num ponto tão delicado e singular de suas vidas, como a Terceira Idade.

Clarice Gomes Palmeira